6. GERAL 26.9.12

1. RELIGIO  EXISTIU UMA SENHORA JESUS?
2. VIDA DIGITAL  A APPLE PERDEU O NORTE
3. GENTE
4. IMPRENSA  EM DEFESA DA LIBERDADE
5. TECNOLOGIA  INSPIRADOS NA NATUREZA
6. CIDADES  O PONTO DE TXI ELETRNICO
7. ESPECIAL  COMO  GOSTOSO LER SOBRE S-E-X-O
8. ESPECIAL  VOLTANDO A FALAR DAQUILO
9. ESPECIAL  O CHRISTIAN GREY DE CARNE E OSSO

1. RELIGIO  EXISTIU UMA SENHORA JESUS?
Um manuscrito faz referncia a uma esposa de Cristo, mas, como isso no combina com os Evangelhos, ter o destino de outras descobertas: o esquecimento.

     H 2000 anos, a passagem de Jesus Cristo pela Terra mudou a histria da humanidade. Os relatos sobre as pregaes de Cristo e suas palavras, contudo, no foram escritos por ele. Praticamente tudo o que se sabe sobre Jesus est contido nos quatro Evangelhos cannicos, reconhecidos pela Igreja Catlica, os de Mateus, Marcos, Lucas e Joo, datados de poucas dcadas aps sua morte. A falta de documentao histrica sobre a vida de Jesus faz com que os olhos do mundo se voltem atentos a cada descoberta de manuscritos antigos que possam trazer mais elementos sobre ele. No sculo passado, surgiram vrios textos apcrifos, ou seja, considerados ilegtimos pela Igreja, que contradizem os Evangelhos oficiais. O Evangelho de Judas diz que ele no traiu Cristo. O de Filipe afirma que Maria Madalena era sua companheira.
     Um novo documento desse tipo foi apresentado na semana passada, em Roma, pela professora americana Karen L. King, da Universidade Harvard. King trouxe a pblico um pequeno fragmento de papiro, um retngulo de 4 por 8 centmetros, com inscries feitas na lngua copta, falada no norte do Egito antigo. Entre catorze trechos de frases incompletas, h um atribudo a Jesus em que ele diria: Minha esposa... ela poder ser minha discpula. A anlise de King indica que o papiro, provavelmente, data do sculo IV. A datao por carbono 14, que comprovaria a idade do manuscrito, no foi possvel porque exigiria uma amostra muito grande, o que destruiria o fragmento. Esse  o nico texto antigo em que Jesus se refere explicitamente a uma esposa , disse King.
     As especulaes sobre a possibilidade de Jesus ter sido casado vm dos primeiros sculos da era crist. Os cristos buscavam referencias sobre o mestre para saber qual comportamento deveriam adotar, diz o historiador Andr Chevitarese, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O celibato do clero s foi definitivamente decretado no Conclio de Trento, que ocorreu entre 1545 e 1563. Seja como for, o papiro estudado por Karen King, tal qual os manuscritos encontrados anteriormente, no alterar em nada a doutrina catlica. O que move o rebanho da Igreja sero sempre os preceitos contidos no Novo Testamento. Sobre a anlise do papiro, escreveu o padre jesuta americano James Martin num artigo no jornal The New York Times: Se descobrissem que Jesus teve uma esposa, isso no mudaria minha f. Apenas, quando eu fosse para o paraso, perguntaria aos apstolos por que eles omitiram uma informao to importante em seus Evangelhos.
ALEXANDRE SALVADOR


2. VIDA DIGITAL  A APPLE PERDEU O NORTE
Com erros grotescos, o programa de mapas para iPhones e iPads, lanado na semana passada, virou motivo de piada.
FILIPE VILICIC

     Deu a louca no mundo na manh da quarta-feira da semana passada. A Torre Eiffel parecia ter cado. Quem quisesse encontrar o Coliseu romano achava um hotel. Nas ilhas Cayman, cidades inteiras evanesceram. O Museu de Arte de So Paulo sumiu. Fazendas viraram parques, pistas de aeroportos pareciam origamis e igrejas eram anotadas como lanchonetes. Foi esse o caos encontrado por boa parte dos 35 milhes de pessoas que em apenas 24 horas baixaram o mais recente sistema operacional da Apple, o iOS 6, que roda em iPhones, iPods e
iPads, e, ao acessar o programa de mapas e GPS, depararam com um festival de erros. A repercusso das gafes obrigou a Apple, sempre to altiva, a baixar a guarda e admitir a fragilidade de seu servio de mapeamento. Pronunciou-se a porta-voz da empresa, Trudy Muller: Melhoraremos o Mapas conforme as reclamaes aparecerem.
     A sexta verso do software da Apple, esse que provocou tanta balbrdia geogrfica, veio com 200 inovaes, como um sistema de comando de voz mais eficiente e um esperto programa para compartilhar fotos. Mas apostava-se muito no sucesso dos mapas, por representar um cutuco no arquirrival, o Google. A Apple decidiu acabar com a parceria que tinha com o Google, referncia em geolocalizao porttil. Resolveu desenvolver seu prprio programa, contratou outro servio de satlites, mas falhou ao entregar um produto ainda em fase de acabamento. Nas duas apresentaes que fez do iOS 6, em junho e h duas semanas  quando tambm mostrou o novo iPhone 5 , Tim Cook, o sucessor de Steve Jobs, exaltou o aplicativo. Ele vem com mapeamento em trs dimenses e rotas narradas curva a curva. O 3D  falho, capaz de desmontar o mais conhecido monumento francs. As informaes por voz no funcionam em muitos pases, como o Brasil. E, onde opera, oferece trajetos equivocados. H soluo, antes das necessrias correes? Sim. Parte das pessoas que se decepcionaram resolveu resgatar o sistema de localizao anterior, que pode ser acessado pelo site do Google Maps. Para aumentar o embarao, o rival Google planeja um programa de mapeamento para ser vendido pela loja de aplicativos do iPhone. S no se fala em tragdia corporativa porque a Apple, mesmo sem norte, ainda  muito admirada: 2 milhes de pessoas compraram o iPhone 5 no primeiro dia de pr-venda on-line e 15% dos usurios adotaram o iOS 6 logo no primeiro dia. 

1- Coliseu (Roma) - Na verso do Google, o alfinete de identificao acerta na mosca, indicando o mais conhecido monumento italiano. Na da Apple, erra o alvo, apontando um hotel.
2- Masp (So Paulo) - Cad o museu paulistano, na Avenida Paulista, a mais conhecida da cidade? No recurso da Apple, h erro na indicao. No do Google, a marcao  exata.
3- Torre Eiffel (Paris) - A construo de ferro, na verso 3D, aparece distorcida, como se tivesse sido desenhada pelo artista grfico holands M.C. Escher.
4- Ponte Williamsburg (Nova York) - Aqui, a imagem est to absurdamente torta, sem comeo, meio ou fim, que poderia ter sido pintada pelo surrealista Salvador Dal.
5- Ilhas Cayman - Surpresa! As ruas desapareceram da cidade de George Town. S sobrou o Aeroporto Owen Roberts. Mas como chegar a ele?
6- Aeroporto de Toronto (Canad) - As pistas, ateno, acabaram de ser atingidas por um terremoto de propores violentas na escala Richter.


3. GENTE
JULIANA LINHARES. Com Dolores Orosco e Marlia Leoni

ELA JOGA BOLA, O CABELO E, AGORA, UMA ISCA
Pelo chefe, ela cortava. Pelo marido, no cortava nunca. Ganhou o jogador de vlei Murilo, da seleo masculina, perdeu o tcnico Jos Roberto Guimares. A cabeleira de JAQUELINE CARVALHO, 28, da seleo feminina, alm de luxuriante, agora  lucrativa. Gisele Bndchen me escolheu para fazer um comercial de xampu junto com ela, orgulha-se Jaque, ouro na Olimpada de Londres. A interao entre ambas  curiosa. Antes de ser jogadora, tentei ser modelo, mas no consegui por causa do meu tamanho, 1,86 metro. J a Gisele queria ser jogadora de vlei. No dia do comercial, algum levou uma bola e a gente brincou um tempo, conta a jogadora. Ciente da inevitvel deflao muscular, ela planeja sair das quadras quando fizer 33 anos e sonda o mercado: Quero ser apresentadora de TV.

A CARNE  FRACA
Pouca gente se espantou quando, no meio de um show, sias atrs, LADY GAGA acendeu e fumou um cigarrinho incrementado.  Primeiro, porque a apresentao era em Amsterd. Segundo, porque j estava todo mundo chapado com a nova silhueta da cantora.  Observadores do gagasmo calculam que ela engordou mais de 10 quilos. Gosto de pizza, ironizou, referindo-se ao restaurante de seu pai em Nova York. Na atual fase de lua cheia, a cantora est namorando Taylor Kinney, um lobisomem na srie The Vampire Diaries, e voltou a usar roupa de bife. Em novembro, vem ao Brasil com a turn chamada The Born This Way Ball. Sem duplos sentidos, por favor.

DANOU E OS MALES ESPANTOU
Alegre, simptica, com um pouco menos de maquiagem e os cabelos mais naturais, sem marcas evidentes da obsesso pela escova. KATE MIDDLETON estava to bem na ltima semana que passou com louvor at no teste da guirlanda de flores na cabea e do saiote de palha, enfeites obrigatrios para os membros da realeza inglesa em visita a pases do Pacfico. E muito disso aconteceu antes mesmo que a Justia da Frana mandasse apreender todas as foros tiradas dela, no pas, sem a parte de cima do biquni. Kate mostrou fora de carter ao enfrentar com classe a intimidade devassada e uma possvel autorreprovao por no ter percebido antes que vida de princesa implica suportar marquinhas no bronzeado.

NADA DE CHOROR. NA MSICA
Quando pequena, TALITA REAL era a garota-propaganda do parque de Beto Carrero. Uma vez, ele me deu um beb leo, relembra. Na adolescncia, animava festinhas imitando Britney Spears. Com tudo no lugar certo, era s gemer e fazer uma boquinha meio mole. Agora, aos 29 anos, Talita une os dotes artsticos ao tino comercial de Xoror, seu padrinho musical, e se lana como a cantora sertaneja que  o oposto de Paula Fernandes, segundo o business plan. Ela fala de amor, e a minha msica se chama Eu Quero Ser a Outra. Ela chora, eu boto uma saia curta. Ela filosofa, eu como chocolate, descreve. Ah, sim, o leozinho foi devolvido ao parque.


4. IMPRENSA  EM DEFESA DA LIBERDADE
Um frum na Colmbia discute a independncia jornalstica e destaca o papel de VEJA nas denncias de corrupo e na resistncia  censura.

     Mesmo com uma extensa fronteira de 1600 quilmetros a separ-la do Brasil, a Colmbia parece um daqueles vizinhos que s se veem de vez em quando e se conhecem superficialmente. Alm da literatura de Gabriel Garca Mrquez, das figuras rechonchudas do artista plstico Fernando Botero, das rosas, das esmeraldas e do caf, o segundo mais populoso pas da Amrica do Sul e o terceiro na economia costuma ser mais lembrado pela produo de cocana, cartis de traficantes e narcoterroristas das Farc, que sucessivos governos se tm empenhado em combater com xito crescente. Tudo isso faz parte da realidade, mas a Colmbia , antes de tudo, o que naes da regio esto longe de ser sob o jugo de tiranetes e populistas, caso da Venezuela, do Equador e da Bolvia. A Colmbia  democracia plena, a mais longeva da Amrica do Sul. Desde 1958, aps a queda da ltima ditadura, os presidentes tm sido eleitos ininterruptamente pelo voto direto, algo que os brasileiros puderam voltar a fazer
apenas 31 anos depois. Essa tradio, somada  estabilidade das instituies, est indissoluvelmente ligada  liberdade de imprensa, o que permitiu a seus principais meios de comunicao denunciar a criminalidade, no transigir diante das ameaas do terrorismo e tomar posies claras em defesa da ordem constitucional quando o ento presidente lvaro Uribe, mesmo admirado pelo implacvel combate aos inimigos da sociedade, namorou a possibilidade de melar as regras do jogo para tentar um terceiro mandato. O preo pago pela resistncia foi alto. Em trs dcadas, 120 jornalistas colombianos morreram assassinados.
     Para refletir sobre essas questes, a revista Semana, a mais respeitada e influente da Colmbia, comemorou seu trigsimo aniversrio com a realizao de um frum internacional de jornalismo que reuniu em Bogot vinte conferencistas e comentaristas polticos da Europa, dos Estados Unidos e da Amrica Latina. As palestras, acompanhadas por 500 jornalistas sul-americanos, foram focadas nas relaes entre imprensa e poder. Disse Javier Moreno, diretor do jornal espanhol El Pas: Elas devem ser de distncia. O papel do jornalismo  de voz dos cidados diante do poder e de co de guarda da democracia. VEJA, a nica publicao brasileira convidada para o encontro, foi destacada por ter revelado a existncia do mensalo, apontado a corrupo no governo Collor e resistido  censura durante a ditadura militar. Aqui na Amrica Latina uma imprensa vigorosa est pondo o dedo na ferida ao denunciar os abusos do poder poltico. So jornais e revistas imbudos dessa misso que demonstram a importncia que o jornalismo independente tem para nossas democracias, resumiu Alejandro Santos, diretor da Semana e responsvel pela organizao do frum, citando, alm de VEJA, os jornais El Universo, do Equador, e Clarn, da Argentina, que os governos autoritrios dos respectivos pases tentaram diversas vezes sufocar. 
CARLOS MARANHO, DE BOGOT


5. TECNOLOGIA  INSPIRADOS NA NATUREZA
Cientistas emulam animais em verses robticas de guepardos, cachorros e camalees. Ao replicarem vantagens naturais desenvolvidas em 3,8 bilhes de anos de evoluo, criam mquinas que parecem sadas de filmes de fico cientfica.
FILIPE VILICIC E GUSTAVO SIMON

     Correr quase trs vezes mais rpido que o jamaicano Usain Bolt, o homem mais veloz da histria. Camuflar-se perfeitamente em uma selva. Carregar 180 quilos nas costas sem incmodo. Parecem poderes de seres de fico cientfica. So caractersticas tpicas dos robs da cidade futurista do clssico Do Androids Dream of Electric Sheep? (em ingls, Androides Sonham com Ovelhas Eltricas?), do escritor Philip K. Dick  inspirao para o filme Blade Runner. Mas ateno: esses poderes so bem reais, fruto do leque de vantagens evolutivas desenvolvidas por animais ao longo de 3,8 bilhes de anos. Desde o surgimento do primeiro ser vivo, uma microscpica bactria, o planeta  um laboratrio no qual fsseis de espcies extintas representam os testes malsucedidos e os sobreviventes so os resultados que superaram as provas impostas pela natureza. O ser humano, desde os primrdios, maravilha-se com essas adaptaes, que concederam a capacidade de voo a aves e a habilidade de respirar embaixo da gua a peixes. Mais que isso, esfora-se para emul-las em experimentos que impulsionam o avano tecnolgico. Na ltima dcada, a imitao da natureza atingiu nveis surpreendentes em robs que espelham os benefcios que a evoluo concedeu, verses mecnicas de guepardos, cachorros e pssaros que em breve estaro em nosso dia a dia.
     O intelecto humano ambiciona copiar a natureza desde a origem do homem moderno, h 200.000 anos, no sul da frica. A primeira casa de barro arquitetada por um de nossos ancestrais imitava o ninho construdo por pssaros em rvores. Escreveu a cientista Janine Benyus em seu livro Biomimtica  Inovao Inspirada pela Natureza: A natureza tem sido pacientemente aperfeioada no decorrer de milnios. A vida aprendeu a voar, navegar pelo globo, sobreviver no fundo dos oceanos e no topo das montanhas. Tudo o que sempre quisemos fazer. Que melhor modelo poderia haver?, O termo biomimtica foi cunhado pelo engenheiro americano Otto Schmitt na dcada de 50. Ele o utilizou pela primeira vez para explicar sua pesquisa de doutorado, na qual criou um mecanismo eltrico que imita o sistema nervoso de lulas. A palavra se popularizou e a imitao da mecnica do corpo de animais virou um campo  parte da engenharia e da biologia. A biomimtica agora conquista maior destaque por apresentar rplicas cada vez mais exatas de animais que so foco de admirao.
     Entre os robs-animais h duas estrelas: o BigDog (em ingls, grande co) e o Cheetah (na traduo, guepardo). Ambos foram desenvolvidos no Boston Dynamics, o principal laboratrio de robs do mundo, financiado pelo governo americano. Apresentado pela primeira vez em 2005, o BigDog imita a estrutura muscular de um cachorro  assemelha-se a um buldogue. Foi desenhado para transportar cargas pesadas. Demonstrada h um ano, sua mais recente verso, o AlphaDog, tem 1 metro de altura, suporta 180 quilos e caminha a 7 quilmetros por hora. O Cheetah, exibido em 2011,  um rob que emula o movimento de um guepardo. Neste ms, em um teste feito em uma esteira, o animal mecnico atingiu 45 quilmetros por hora  recorde entre robs. Quando criamos, s temos um universo como inspirao, o da natureza. Sua excelncia serve de base para qualquer invento, disse a VEJA o engenheiro sul-coreano Sangbae Kim, chefe do laboratrio de biomimetismo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e colaborador do Boston Dynamics. Durante milnios se batalhou para imitar o que a natureza apresenta de melhor com a ambio de suprir a necessidade humana de alcanar velocidade e fora cada vez mais magnficas. Os novos passos da cincia levam a tecnologia a ultrapassar o estgio da emulao e superar os limites biolgicos  mquinas correm e voam, mas no se cansam nem adoecem ou morrem. 

PASSADAS FELINAS
O animal...
A corrida de mais de 100 quilmetros por hora do guepardo faz dele o animal mais rpido da superfcie da Terra. O segredo est em sua larga passada, com abertura de 6,5 metros.
...e a mquina
Imita a flexo de 130 graus da espinha do felino, o que permite o alongamento das patas e a alta velocidade. Atinge 45,5 quilmetros por hora. No  preo para o guepardo, mas garante a vitria contra Usain Bolt, o homem mais veloz
Para que  til
O plano  usar a Cheetah em resgates, por exemplo, para retirar pessoas de um incndio.

O ESPIO IDEAL
O animal...
O beija-flor bate as asas at noventa vezes por segundo.  o nico pssaro que voa em todas as direes e consegue estacionar no ar, planando.
...e a mquina 
o nanoveculo areo (NAV) mimetiza a dinmica do corpo do beija-flor: as penas de metal atuam como um leme para guiar o voo.
Para que  til
Equipado com uma cmera e controlado remotamente, foi desenhado para misses de espionagem.

CO DE CARGA
O animal...
Quatro patas musculosas e articuladas garantem estabilidade e fora de trao ao movimento de cachorros de grande porte
..e a mquina
As pernas do AlphaDog (em ingls, cachorro alfa) copiam a constituio canina. Ele  capaz de correr e pular em terrenos acidentados, reerguer-se aps quedas e carregar peso.
Para que  til
Aguenta 180 quilos no lombo e responde a comandos de voz  pode seguir soldados no campo de batalha ou transportar sacos de areia em um canteiro de obras.

DISFARCE PERFEITO
O animal...
Hormnios controlados pelo crebro do camaleo lhe permitem manipular clulas que do pigmentao  pele. Assim, ele simula a cor do ambiente.
... e a mquina
Sob a estrutura do rob-camaleo h duas redes de fios que, quando abastecidas com fluidos, alteram a cor e o brilho da carapaa de silicone.
Para que  til
O material pode camuflar avies militares, tanques e vestimentas de soldados.


6. CIDADES  O PONTO DE TXI ELETRNICO
Aplicativos para smartphones rastreiam os carros que circulam prximo ao local onde o passageiro se encontra e avisam aos taxistas que ele est  espera.

     Em diversas cidades do Brasil e de outros pases ficou mais fcil conseguir um txi. No Rio de Janeiro e em So Paulo, assim como em Londres e Los Angeles, j funciona um sistema de aplicativos para smartphones que permite ao passageiro localizar o txi mais prximo de onde ele se encontra, por meio de GPS. A seguir, tambm por smartphone, o taxista  instrudo a se dirigir ao local. Para isso, o txi deve estar cadastrado nas empresas que administram o aplicativo. Bastam poucos toques na tela do celular e o carro chega em instantes (veja o quadro). Em algumas cidades, o pagamento tambm pode ser feito pelo smartphone, por meios como o PayPal.
     Em So Paulo, onde circulam 33.750 txis, a empresa SaferTaxi tem 750 deles cadastrados em seu sistema. Isso representa 2% da frota. Eles so usados por 22.000 usurios que j baixaram de maro at hoje o aplicativo da empresa. Outra firma, a ResolveA, tem 10.000 taxistas e 70.000 usurios registrados em nove cidades do pas, entre elas Rio de Janeiro, Braslia e Joo Pessoa. A meta dessas e de outras companhias , at 2014, estar em operao em todas as cidades do pas que sediaro a Copa do Mundo. O aplicativo  gratuito para o consumidor. O taxista, como no esquema das cooperativas, paga parte de cada corrida s empresas que administram o aplicativo.
     O ponto de txi eletrnico ainda apresenta nmeros modestos no Brasil quando comparados aos de metrpoles como Londres, onde 15% da frota j aderiu a ele e os usurios somam 200.000. Em Nova York, 25% da frota de txis j havia se registrado nos sistemas de aplicativos de vrias empresas quando, no incio deste ms, o rgo que administra o transporte pblico na cidade resolveu proibi-los. A justificativa  que eles infringiam onze regras que regulam os txis. Entre elas est a proibio de o motorista usar qualquer tipo de aparelho eletrnico com o veculo em movimento e a restrio ao pagamento em dinheiro  os txis que funcionavam com aplicativos s aceitavam pagamento em carto de crdito. Se depender do prefeito Michael Bloomberg, porm, o hbito de chamar txis via smartphone vai voltar s ruas da cidade. Dias depois de baixada a proibio, a equipe de seu gabinete postou no Twitter: Temos entusiasmo pelos novos aplicativos para txis, e vamos trabalhar para torn-los legais em pouco tempo. Enquanto isso, para pegar um dos famosos yellow cabs, os nova-iorquinos seguiro apelando para os acenos de mo. 
GUSTAVO SIMON

COMO  O SISTEMA
1- O passageiro abre o aplicativo e o autoriza a localiz-lo por GPS
2- O sistema rastreia os txis cadastrados mais prximos
3- Os motoristas recebem um aviso no aplicativo e um deles comunica  central que se encarregar da corrida
4- O passageiro v a foto do taxista, a placa do carro e avaliaes de quem j usou aquele txi. Se quiser, pode recus-lo e pedir outro carro.


7. ESPECIAL  COMO  GOSTOSO LER SOBRE S-E-X-O
O verdadeiro fenmeno da trilogia ertica Cinquenta Tons de Cinza no  vender tanto   fazer com que as leitoras tratem abertamente e sem culpa do que gostariam de dividir com os homens na cama.
GABRIELA CARELLI E SIMONE COSTA

     A esta altura, no faz diferena alguma ter lido ou no Cinquenta Tons de Cinza, o primeiro volume da trilogia ertica escrita pela inglesa Erika Leonard James, que assina como E.L. James. Cedo ou tarde, mesmo quem no est interessado no assunto e mantm distncia assptica do livro vai saber pormenores da histria. O romance foi alado  categoria de fenmeno  ou seja, falem bem ou falem mal, no se fala em outra coisa. Nunca um livro de fico vendeu tanto em to pouco tempo. Em seis semanas, mulheres do mundo inteiro (sim, so 99,9% de leitoras, o resto cabe a uma frao mnima de curiosos ou desavisados do sexo masculino) devoraram 10 milhes de cpias. O Cdigo Da Vinci, de Dan Brown, demorou um ano e meio para atingir a mesma marca. Cinquenta Tons de Cinza tambm foi o primeiro e-book a ultrapassar 1 milho de downloads. O frenesi causado pelo estranho relacionamento amoroso entre o sdico Christian Grey e a estudante Anastasia Steele, a virgem que se revela uma talentosa parceira submissa, autorizou espertas jogadas de marketing, como a de um hotel prximo a Liverpool, na Inglaterra que substituiu a Bblia oferecida aos hspedes nos criados-mudos por exemplares de Cinquenta Tons.
     O segundo livro da srie, Cinquenta Tons Mais Escuros, chegou s livrarias do Brasil h duas semanas e j ocupa o primeiro lugar na lista de Mais Vendidos de VEJA. O primeiro volume (340.000 exemplares desde julho no pas, um oceano de pginas para os padres nacionais) permaneceu na mesma posio por sete semanas consecutivas. Sexo vende. No h novidade alguma nisso. Ainda mais se envolto em uma edulcorada histria de amor.  o que Erika James oferece s leitoras. O livro  um romance bobinho, ao estilo das comdias romnticas hollywoodianas de Nora Ephron, costurado com cenas de sexo fetichista. Dar um filme, claro, e as apostas de atores j comearam (veja a reportagem na pg. 118). A linguagem  pobre.  muita areia para o meu caminho!, exclama em quase todos os captulos a submissa, enquanto o dominador reverbera chaves sofrveis do tipo Deixe-se levar, baby. Enfim, para quem ainda no sabe, e a partir daqui convm saber, a histria gira em torno do alto, lindo, sensual e bilionrio Christian Grey, na faixa dos 28 anos, que se encanta com a estudante universitria Anastasia Steele, no esplendor de suas 21 primaveras. Abusado na adolescncia  essa  a desculpa oficial para as taras do bonito , ele desenvolve uma predileo por algemas, surras, vendas, chicotes e tudo o mais que possa causar dor, muita dor,  parceira. E ela aceita, e gosta, e quer mais.
     A literatura est cheia de livros erticos notveis, mais bem escritos e capazes de provocar incndios bioqumicos de propores muito maiores. Em A Histria de O, escrito em 1954 pela francesa Anne Desclos com o pseudnimo de Pauline Rage, a fotgrafa que se deixa escravizar pelo amante sdico  forada a se despir dentro de um txi j nas primeiras pginas. Grey e Anastasia engatam o primeiro beijo apenas no longnquo quinto captulo. Considerado obsceno e pornogrfico, O Amante de Lady Chatterley, de D.H. Lawrence, de 1928, foi publicado sem cortes na Inglaterra s trs dcadas depois. Nenhum deles alcanou uma filigrana da popularidade de Cinquenta Tons.
     No , portanto, o sucesso editorial da trilogia de E.L. James que merece ser estudado. Fenmenos literrios de qualidade duvidosa, assim como as paixes, surgem avassaladores e arrefecem pouco tempo depois. O que h de realmente extraordinrio  o fato de o romance movido a correntes e algemas, em uma despudorada alcova chamada O Quarto Vermelho da Dor, mesmerizar mulheres de idades, classes sociais, formaes, religies e origens to diferentes (25 delas aparecem ao longo desta reportagem). Diante da enorme repercusso, e na trilha do sexo submisso e da figura do macho dominador e provedor representado por Grey, cabe perguntar o que os homens do mundo inteiro j esto se perguntando: o que querem as mulheres que compem a legio de fanticas pela trilogia? A resposta no  simples. Entender as mulheres sempre foi um desafio enorme  e, se essa preocupao soa como chavo,  porque ela  recorrente e jamais nos abandonou. A grande questo que nunca foi respondida e para a qual eu ainda no tenho resposta, apesar de meus trinta anos de pesquisa da alma feminina, : o que deseja uma mulher?, escreveu Sigmund Freud no incio do sculo XX. Ser que depois de cinco dcadas de luta por liberdade sexual, independncia financeira, direitos iguais aos dos homens, a mulher de hoje, exaurida pela exigncia de ser a me perfeita, a mulher magra e linda e a excelente profissional, quer mesmo  levar uma surra apaixonada do marido? Se o estouro de Cinquenta Tons de Cinza servir como um guia para a compreenso da sexualidade feminina, tudo indica que sim.
     Ou no. Com a palavra, a mulher que deflagrou a histeria. Minha histria tem elementos de contos de fadas, e  isso que encanta as mulheres. O sexo no  o mais importante, disse E.L. James a VEJA (leia a entrevista na pg. 114). Em uma enquete realizada pela Editora Intrnseca em sua pgina no Facebook, a pedido de VEJA, com o intuito de descobrir por que as mulheres adoram Cinquenta Tons de Cinza, 469 das 526 participantes afirmaram, simples e candidamente, gostar do romance entre Christian Grey e Anastasia. S 23 disseram ter se empolgado com as cenas sadomasoquistas. Ser que elas falaram a verdade? Um homem que entende de narrativas de sucesso regadas a sexo e amor, o autor de novelas da Rede Globo Ricardo Linhares, suspeita que sim: O sadomasoquismo  s uma roupagem moderninha para o bom e velho folhetim.
     Desde o Relatrio Kinsey, o mais completo inventrio sobre sexualidade humana jamais elaborado, conduzido pelo bilogo americano Alfred Kinsey e publicado em 1948, uma infinidade de estudos tentou traduzir em porcentagens os desejos e aspiraes sexuais de homens e mulheres. Nos Estados Unidos, um dos maiores levantamentos do gnero j realizados desde Kinsey, a Pesquisa Nacional de Sade Sexual e Comportamento, revelou mudanas significativas na atual vida sexual das americanas. Elas esto bem mais ousadas do que h duas dcadas  e buscando mais prazer. Pouco mencionado nas pesquisas anteriores, o sexo oral  hoje praticado por 69% das americanas. A masturbao tambm deixou de ser tabu. Mais da metade das entrevistadas afirmou masturbar-se com frequncia, tendo ou no um parceiro. No Brasil, as preocupaes femininas ainda so outras. Pesquisadores do Projeto Sexualidade do Hospital das Clnicas encontraram algumas pistas do que querem as brasileiras depois de escutar 8200 pessoas de 18 a 80 anos em dez capitais do pas. Das mulheres que participaram do estudo, 57% disseram que no fariam sexo sem um vnculo afetivo, enquanto somente 24% dos homens atrelaram o sexo ao amor. So eles, no entanto, que reconhecem ter mais fantasias erticas: 68,6%, contra 45,5% por parte das mulheres. Entre as mais jovens, 49% admitiram j ter trado, o dobro em relao s mulheres da gerao anterior. Entre os homens, o ndice de infidelidade declarado chega a 70%.
     Nas cincias estatsticas, h poucos assuntos to difceis de medir quanto o comportamento sexual. Geralmente, h um fosso enorme entre o que se diz e o que se faz. Os homens tendem a superestimar suas performances sexuais. As mulheres agem de forma oposta. Na tentativa de corrigirem essa distoro, alguns pesquisadores decidiram ir alm do simples questionrio e passaram a usar aparatos tecnolgicos em seus estudos. Uma pesquisa da universidade canadense McGill, feita em 2006, utilizou sensores para medir a temperatura corporal de homens e mulheres enquanto eles eram expostos a imagens pornogrficas. A concluso contrariou o senso comum de que os homens so mais sensveis ao que lhes capta o olhar do que as mulheres. Elas se excitam to rapidamente quanto eles ao vislumbrar imagens de sexo.
     A psicloga americana Marta Meana, da Universidade de Nevada, nos Estados Unidos, tambm usou recursos tecnolgicos em suas investigaes. Em um de seus estudos, homens e mulheres puseram culos capazes de acompanhar o movimento dos olhos durante a exibio de imagens sensuais de diversos casais. Os homens olhavam primeiramente para as mulheres da imagem, para o rosto e o corpo delas, e s ento prestavam ateno nos rapazes. As mulheres dividiam a ateno entre os dois. Os olhos femininos fitavam, em seguida, o rosto masculino e o corpo da mulher, admirando o fascnio do homem pela companheira. Explica a psicloga: A pesquisa provou que o desejo da mulher no esta s atrelado  intimidade com o parceiro, mas tambm  necessidade de se sentir desejada.  uma espcie de narcisismo, mas que vai alm da reciprocidade do parceiro. As fantasias erticas femininas esto muito mais ligadas  vontade de ser fonte de prazer do que de receber.
     A tese de Marta Meana justifica, pelo menos em parte, por que a submisso da jovem Anastasia por Grey coincide com os desejos de dezenas de milhes de mulheres e voltamos todos, debruados em Cinquenta Tons, a falar daquilo sem vergonha alguma (veja a reportagem seguinte). Para desgosto das feministas radicais, e surpresa geral, o sucesso do livro mostrou que, a despeito de toda a independncia financeira e sexual conquistada nas ltimas cinco dcadas, as mulheres ainda idealizam a figura masculina, diz o filsofo Luiz Felipe Pond. Grey representa a potncia, o homem provedor. Ele  o sonho de todas as mulheres ditas emancipadas. Essa necessidade de um homem forte para chamar de seu, que a psicobiologia acredita ter origem nos tempos das cavernas, quando as caas do macho garantiam a sobrevivncia da mulher e da prole, parece mesmo estar arraigada  psique feminina.
     Em 1976, o Relatrio Hite, elaborado pela sociloga e ex-modelo Shere Hite, que os adolescentes levavam para o banheiro como leitura estimulante, condenou a falta de habilidade masculina para satisfazer as mulheres e fez uma apologia do prazer solitrio feminino  se do lado de fora a sociedade no autorizava liberdades sexuais, que a questo fosse resolvida individualmente. A masturbao e suas variaes so um timo instrumento para dar s mulheres a sensao de independncia diante dos homens, anotou Shere. Era o que as mulheres praticavam, mas no era o que queriam, aparentemente. Apesar de alcanarem orgasmos sozinhas, 87% das mulheres entrevistadas por Shere disseram preferir ter uma relao sexual completa. O sexo solitrio, afirmaram, no as conduzia ao mesmo estgio de prazer. No seria exagero dizer que cinquenta Tons de Cinta  um Relatrio Hite desavergonhado, romanceado, capaz de pr em fico o que as mulheres fazem ou dizem gostar (ou sentem falta, v l) no cotidiano real. O que elas querem, para voltar ao ponto da indagao seminal de Freud, est l, com admirvel crueza.
     A transformao monumental do papel da mulher na sociedade ocidental a partir de meados do sculo passado implicou profundas reviravoltas comportamentais. Uma mulher decente, nos anos 50, s fazia sexo com o marido. De preferncia  meia-luz, mas com camisola. Nudez total? S no escuro. As moas de famlia eram criadas para se casar e ter filhos. A vida adulta das mulheres comeava e terminava no ambiente domstico. Com a chegada da plula anticoncepcional, na dcada de 60, a mulher assumiu o controle de seu corpo e de sua vida efetiva. Muita coisa mudou desde ento, mas nem todas as mudanas foram assimiladas. A revoluo sexual ainda est no incio e h muito caminho pela frente, diz a psiquiatra Carmita Abdo, que h quarenta anos acompanha a evoluo do comportamento sexual da brasileira. Para muitos especialistas do comportamento feminino, o sucesso de Cinquenta Tons de Cinza sinaliza um retrocesso das mulheres, que deveriam almejar mais independncia, no a dominao masculina, seja no sexo, seja em outros aspectos da vida. Outros percebem o fenmeno de forma contrria, e a talvez resida o espetacular interesse por algo to antigo: o livro representa a evoluo do feminismo, o que quer que essa definio abarque, capaz de tir-lo da academia e de posturas atavicamente aborrecidas. Diz a psicanalista Regina Navarro Lins: Hoje, as mulheres podem dizer, sem culpa, que gostam de ser subjugadas na cama. H mais liberdade e independncia do que isso?. O desfecho, s nos prximos captulos.

O QUE A ATRAIU NA HISTRIA DE ANASTASIA STEELE E CHRISTIAN GREY?
As motivaes de 25 mulheres, dos 18 aos 73 anos, ajudam a entender o fascnio e a repulsa  srie de E.L. James.

ALINE GUZZO, 23 anos Advogada, Belm
Comprei porque me interessei pelo rtulo de pornografia para mames. Todo homem deveria ler esse livro para saber o que uma mulher deseja:  uma combinao de erotismo, mistrio e romance.

CECLIA CRUZ, Aposentada, So Paulo
Nunca havia lido nada parecido, mas, com exceo da poltica, nada mais me choca nesse mundo. Vejo a relao sadomasoquista dos personagens com muita naturalidade. Tudo o que acontece  prprio da natureza deles, faz parte da narrativa.

CLUDIA BELISRIO, 37 anos Psicanalista, Belo Horizonte
 uma tradicional histria de princesa, como as da Disney, s que com muito sexo. Cansei de ler s Lacan e Freud. Precisava de um pouco de frivolidade. Troquei o Freud pelo Christian Grey.

GLEISE HOFFMANN, 41 anos Ministra-chefe da Casa Civil, Braslia
J li as crticas a respeito do livro e da autora. Mas no est na minha lista de prioridades. No momento s estou me dedicando a portos e aeroportos.

DANIELLA SARAHYBA, 28 anos Modelo, Rio de Janeiro
J tinha lido outras obras com passagens erticas, mas nunca algo to forte. Os
personagens desejam coisas muito loucas, sem ser vulgares. Todas as mulheres com quem conversei ficaram, como eu, fascinadas com o erotismo explcito.

MIHELE KNIG, 34 anos Empresria, Gravata
Queria dar uma esquentada no casamento.  leitura bem adequada para pessoas mais retradas, mas na verdade achei um pouco gua com acar demais, tem muito romance,  muito meloso.

IZABELLA TEIXEIRA 51 anos Ministra do Meio Ambiente, Braslia
Se eu ganhar de presente, pode ser que leia. Mas  brbaro que exista um fenmeno editorial desse tamanho. O que atrai tantas leitoras, acho,  a possibilidade de as mulheres se imporem e serem mais mulheres.

HELENA CHAGAS, 50 anos, Ministra da Secretaria de Comunicao Social, Braslia
Todo mundo comentou, comeou a circular muita informao sobre o livro e comprei em papel mesmo, no no iPad. No passei do primeiro captulo. Achei muito chato.

MANUELA DVILA, 31 anos Deputada federal e candidata a prefeita de Porto Alegre
Cinquenta Tons de Cinza  um livro que, na aparncia, nos segura pela trama sexual muito intensa. Mas, para mim, trouxe outras reflexes sobre as inseguranas afetivas na vida adulta em funo da primeira infncia.

MARCELLE BITTAR 30 anos Modelo, So Paulo
Christian Grey  um prncipe encantado das trevas, que inspira tanto o lado romntico de cada uma de ns como as fantasias mais picantes que cultivamos. J vi gente dizendo que o livro  um horror, mas tudo depende da interpretao. Sou muito livre de preconceitos.

LLIAN CAVALHERI, 33 anos Administradora de empresa, Altinpolis (SP)
Meu marido at ficou com cime do Christian Grey, de tanto que eu falei que ele era o mximo. De vez em quando, pergunta: Vamos brincar de Christian Grey?. Mas no tenho vontade de conhecer uma relao sadomasoquista.

DANILE UCHA LIMA, 40 anos Assessora ambiental, Belm
Li a srie em duas semanas: duas vezes o primeiro livro, trs vezes o segundo e duas vezes o terceiro, a ponto de o cansao da noite em claro ter prejudicado o trabalho.

DANIELLE STOEVER, 25 anos Publicitria, Porto Alegre
Achei o livro legal por tratar de sexo sob a tica da mulher e ser bem diferente de tudo o que conhecia. Indiquei para a minha me, para uma tia e para as amigas.

MARINA FARAH, 27 anos Dona de restaurante, Belo Horizonte
 o livro mais ertico que j li. As mulheres esto to enfeitiadas com a histria e idealizam tanto o Christian Grey que a srie se transformou em leitura essencial para o pblico masculino tambm.

WANDERLA, 66 anos Cantora, So Paulo
Achei careta. Lembro de livros na minha adolescncia bem mais excitantes e originais  O Cortio, de Alusio Azevedo, as obras de Jorge Amado. Tambm discordo do rtulo porn para mes. As mes brasileiras da minha gerao no so assim. Sua sensualidade  mais exuberante e colorida.

ROSE DE FREITAS, 63 anos Vice-presidente da Cmara dos Deputados, Braslia
Gosto de livro que impacta. Esse traz a audcia da conversa e do contedo para um tema que abre a cabea das mulheres.  um assunto cido, difcil, mas em ns, leitoras, desperta imensa curiosidade.

FLORENA CASTRO, 18 aos Estudante de jornalismo, Porto Alegre
No gosto de fico, mas fiquei encantada com o tom enigmtico do romance. Todo mundo estava falando do livro e usando expresses como isso  muito cinquenta tons de cinza. Fui ver do que se tratava e gostei.

FLAVIA BARTHOLO 33 aias Dentista, So Paulo
Cinquenta Tons de Cinza mostra como  a mulher quando ela se apaixona, o que se passa em sua cabea, o que ela  capaz de fazer por uma paixo.  cativante.

KTIA DE FIORI, 43 anos Gerente de produtos, So Paulo
Comprei porque todas as minhas amigas estavam comentando no Facebook. Li em quatro dias e achei muito excitante. At agora no mudou em nada minha vida sexual, mas com certeza a leitura me estimulou a pensar em novidades.

GISELE RAMON, 29 anos Bancria, So Paulo
No incio, fiquei chocada com o sadomasoquismo, mas depois me apaixonei pela histria de Christian Grey. Ele tem uma mente perturbada, mas  misterioso e pede para ser desvendado. Eu quero entend-lo.

SIMONE DEMOLINARI, 33 anos Administradora, Belo Horizonte
Christian Grey seduz com maestria.  tudo o que a mulherada quer. Mas para ter um homem assim deve-se pagar um preo alto, que  o sadomasoquismo. Nesse caso, prefiro descartar o sedutor.

NICE VIEIRA 43 anos Diretora comercial, So Paulo
Li o primeiro volume em dois dias. Agrada tanto porque  uma mistura de romance com sexo. Mas as mulheres ainda tm receio de assumir que so atradas por esse tipo de literatura. Eu mesma no me sentiria bem lendo em pblico.

EVILIN BRAGA, 19 anos Estudante de gesto, Porto Alegre
Li por causa de uma prima que mora no Canad e me indicou. Ansiosa, nem esperei pelas tradues em portugus. Homem gosta de filme porn, mulher prefere esse tipo de leitura.

LAIS GALDINO, 19 anos Estudante de gastronomia, So Paulo
O que mais gostei no livro  o fato de ele ser um romance com descries realistas das cenas de sexo. Por mais que converse com as amigas, a gente nunca imagina que poderia encontrar algo to explcito para ler.

FLVIA STEINBRUCH, 28 anos Arquiteta, So Paulo
No incio me senti desconfortvel, mas depois me acostumei com o sadomasoquismo que permeia toda a histria. O sucesso do livro prova que as mulheres ainda sonham em ser Cinderela, mesmo que o seu grande amor use um chicote na cama.


ENTREVISTA  QUEREMOS SER AMADAS
Me de dois adolescentes, com idade em torno dos 40, a ex-gerente de produo de TV inglesa Erika Leonard James (pseudnimo de E.L. James) conquistou uma legio de fs com sua trilogia ertica. O que agradou a mulheres do mundo inteiro, disse a autora a VEJA, no foi o sexo, mas o enredo de conto de fadas.

Por que seus livros fizeram tanto sucesso entre as mulheres? 
O livro  uma histria de cura pelo amor, contm os mesmos elementos mticos que eternizaram o conto de fadas A Bela e a Fera (escrito pela francesa Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve, em 1740). Isso sem falar dos meus esforos para manter a narrativa cativante, rpida, prendendo a imaginao do pblico. As cenas erticas contriburam, mas o romance, a histria de amor,  a razo do sucesso da trilogia.

A senhora acredita ter chegado perto da resposta para a clebre pergunta de Sigmund Freud: o que querem as mulheres? 
Honestamente, no. Mas fiquei feliz de saber que muitas mulheres tm a mesma fantasia que eu. De qualquer forma, acho que as mulheres esto sempre redefinindo a si mesmas sobre o que querem da vida e dos relacionamentos. Antes de tudo, querem ser amadas e respeitadas. Minha trilogia  sobre franqueza, honestidade e negociao justa. Todas ns buscamos isso nas nossas relaes.

Admirar um macho alfa e dominador como Christian Grey  uma espcie de vlvula de escape para as mulheres modernas, que hoje se desdobram para conciliar famlia, vida sexual e trabalho? 
Discordo dos que dizem que o livre-arbtrio conquistado a duras penas pelas mulheres seja um fardo. Tambm no acho que o livre-arbtrio nos tira o direito de relaxar e de gostar de submisso, pelo contrrio.

Os seus livros impactaram a vida sexual das mulheres, na prtica?
Tenho recebido centenas de e-mails das leitoras. A maioria parece estar gostando mais de sexo e aproveitando melhor os momentos a dois. Elas dizem que o marido ou namorado est muito contente com essa mudana. Elas se apaixonaram por Christian Grey e querem desfrutar alguns de seus, digamos, dons com o parceiro.


HUMOR  V ENTENDER AS MULHERES!
Queria ver se o lindo e bilionrio Christian Grey fosse caixa de banco. Duvido que a Anastasia iria dar todo esse mole.
MARCELO MADUREIRA HUMORISTA DO CASSETA & PLANETA

     Entre constrangido e envergonhado, adquiri um exemplar do campeo de vendas das livrarias Cinquenta Tons de Cinza, obra da senhora E.L. James. Afinal, precisava saber por que e, principalmente, como esse livro faz com que as mulheres subam pelas paredes feito lagartixas profissionais. Chegando em casa, j tomado de sofreguido e com o corao aos pulos, tranquei-me no escritrio. Apalpei e cheirei o volume para verificar se havia alguma tisana ou alguma poo mgica embebendo as pginas e que fazem as fmeas, num frmito de volpia sensual, devorar captulos atrs de captulos, at que, ento saciadas, larguem lnguidas o exemplar num canto da alcova. Constatado que, pelo menos o meu exemplar, de diferente no tinha nada, dediquei-me  leitura de tal ingresia.
     Anastasia (nada a ver com o governador de Minas) Steele  estudante e comerciria, tem um iPod e um Fusca. Christian Grey (grey, cinza na grafia britnica e gray, na americana, essa  a sacada inteligente, pessoal)  lindo, bilionrio, tem um Audi cup, curte pera de Delibes, pilota um helicptero EC 135 Eurocopter nas horas vagas e serve um finssimo branco Pouilly-Fum. Captulo 7 e nada de sacanagem. Eles estabelecem uma relao submissa-dominador por meio de um contrato detalhado. O tal contrato lista tudo o que a gente pede para as mulheres fazerem e elas recusam, indignadas. Parece que esse cara  meio boiola.
     Ufa! Finalmente no captulo 8 comea o vuco-vuco e a moa (ex-moa) perde a virgindade na pgina 107. Mas o Grey faz questo de usar camisinha (ficaria melhor traduzido por condom). Tudo  muito politicamente correto. A submissa e o dominador estabelecem ento uma relao sadomasoquista. Bidu!  impressionante como ele gosta de espancar o derrire da moa. Qualquer psicanalista de porta de inconsciente interpretaria isso de primeira. O mais engraado  que eles se comunicam por e-mail. No devem ser muito familiarizados com as alternativas da internet. O estranho  que o Mr. Grey usa o seu endereo corporativo nas missivas, que vacilo. Sinceramente (e vejam como sou intelectual), gostei mais de O Amante de Lady Chatterley, do D.H. Lawrence.
     V entender as mulheres! Queria ver se o Mr. Christian se chamasse Agenor e fosse caixa de banco. Duvido que a Anastasia (nada a ver com o governador de Minas) iria dar todo esse mole pra ele.

O ESTILO DE VIDA DE CHRISTIAN GREY
Sute Literary Arts, do Hotel Heathman, em Portland, 1700 reais a diria.
Pouilly-Fum, um dos grandes brancos do Vale do Loire.
Helicptero EC 135 Eurocopter com capacidade para sete pessoas.
Audi cup R8 Spyder, de 900.000 reais.


UMA PEQUENA HISTRIA DA LIBERAO SEXUAL
As conquistas das mulheres nas ltimas cinco dcadas, da plula  internet.
1960 - PLULA ANTICONCEPCIONAL - A chegada do contraceptivo feminino ps fim a 5000 anos de patriarcado. At ento eram os homens que decidiam quantos filhos a mulher teria. Com a plula, ela passou a ter controle sobre o prprio corpo, o sexo se dissociou da procriao e aliou-se ao prazer.  mulher foi dado o direito ao orgasmo e a queimar seus sutis.
1970  MODA - Cabelos curtos, minissaias e biqunis. A roupa refletia a quebra de um padro de comportamento. As mulheres foram perfuradas pelos espartilhos no sculo XIX e at os anos 70 continuavam usando roupas que as prendiam e enrijeciam. O laqu nos cabelos tambm era smbolo disso.
1977  DIVRCIO - No Brasil, a aprovao legal do fim do casamento foi a institucionalizao de uma ruptura iniciada na dcada anterior. As pessoas puderam deixar relaes malfadadas e buscar realizao afetiva e prazer sexual.
1995  RELACIONAMENTOS NA INTERNET - Com a web, a timidez foi deixada de lado. Por trs da tela do computador as mulheres comearam a viver fantasias reprimidas, ainda que por meio de personagens criadas na rede. Houve um aumento do leque de opes: h mais parceiros na rede que na vida real.
1998  VIAGRA - Enquanto os homens viram na plula azul o fim da impotncia, as mulheres buscaram tratamentos estticos e reposio hormonal. Ao mesmo tempo, houve uma mudana de mentalidade. Uma mulher de 60 anos deixou de ser a av para assumir que ainda era sexualmente ativa.





COM REPORTAGEM DE ANDR ELER, KALLEO KOURA, LARYSSA BORGES, MARCELO SPERANDIO E NATHLIA BUTTI.


8. ESPECIAL  VOLTANDO A FALAR DAQUILO
Cinquenta Tons pe o sexo de volta na mesa de conversa.  um tipo de fantasia que deixa muitas mulheres agitadas, em mais de um sentido.
DOLORES OROSCO

     Com uma coisa todo mundo concorda: por causa da srie iniciada com o livro Cinquenta Tons de Cinza, voltou-se a falar, socialmente, sobre sexo. E no sobre o basico, sobejamente conhecido, mas sobre as modalidades que entram na esfera dos jogos de domnio e submisso. Fantasias comuns a homens e mulheres, em variadssimas doses. Para tentar simplificar um assunto complicado,  possvel arriscar que seu espao no mundo da sexualidade vai de 5% (abaixo disso, at o conceito de pegada fica difcil de explicar) a 95% (acima, a sobrevivncia  inviabilizada). Os pedaos mais movimentados do livro da simptica Erika Leonard James atingem um ndice aproximado de 45%. O suficiente para provocar um bocado de leitoras.
     Praticamente metade das comdias voltadas para o pblico adolescente masculino tem uma cena manjada: o personagem principal em algum momento  algemado a uma cama por uma garota bonita e fica esperando pelo paraso. Na sequncia,  largado, abandonado, enganado, tripudiado e, por fim, humilhantemente libertado por um segurana de hotel ou equivalente, sob gargalhadas do pblico. Fazer piadas com o tema da submisso sexual, alm de ser um modo de liberar tenses, fica muito mais fcil quando essa prtica ocorre com homens, em especial atores com cara de boboca. Quando envolve mulheres, o assunto ativa vrios alarmes. Primeiro, no nvel mais bsico, porque pode parecer que as fantasias femininas de submisso avalizam de alguma maneira a abominao da violncia sexual. No segundo nvel, justificariam o comportamento de brucutus emocionais que no entendem nem se encantam com as modulaes da sexualidade feminina. Para ambos os casos, a antroploga Mirian Goldenberg tem uma resposta definitiva: A mesma mulher que gosta de bancar a dominadora com um cara pode exercer o papel de submissa com outro. A excitao feminina no  esttica. Na cama, ao contrrio do que acontece fora dela, as fantasias de mando, dominadora ou submissa geram prazer e no atrito social.
     Existem ainda os alarmes de terceiro grau, os das mulheres que no querem nem pensar nisso. Ou achavam que no queriam, at descobrirem um certo Christian Grey, o personagem que alterna muito romance gua com acar com bastante sexo apimentado, uma combinao em geral irresistvel para psiques femininas. O desejo de ser dominada sexualmente por um homem bonito, que a respeita e corteja,  a mais comum das fantasias, diz a psicloga americana Randi Gunther, especialista em terapia para casais. Nunca conheci uma mulher que quisesse ser dominada por um homem que no gostasse dela. Nesse jogo de submisso, a mulher quer ter a sensao de que aquele homem s atingir tal nvel de prazer com ela. Como os homens, elas gostam de sentir esse poder.
     Desse ponto de vista,  possvel dizer que uma mulher  mais poderosa do que nunca quando est na situao de submisso. A ideia de exercer um poder sexual avassalador e incontrolvel sobre o parceiro  um dos grandes combustveis do desejo sexual feminino. A mulher sente mais prazer em ser desejada, constata o psiquiatra Luiz Sperry Cezar, especialista em sexualidade do Hospital das Clnicas em So Paulo. A submisso sexual  o ponto mais extremo dessa fantasia de se sentir desejada. A dominao do parceiro, fantasiada ou encenada, tambm pode ser uma forma de entregar o controle da sexualidade a foras superiores e, portanto, irresistveis. Alis, deliciosamente irresistveis e assumidas com crescente tranquilidade. No passado, havia mulheres que diziam Do jeito que ele me seduziu, no pude resistir, quase pedindo desculpas. Hoje, elas ainda usam essa frase, mas como forma de enaltecer a pegada de um homem, compara o professor Amaury Mendes Jnior, do Ambulatrio de Sexologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
     Note-se que, at agora, ningum falou (nem vai falar) naquela frase pavorosa de Nelson Rodrigues. Mas  preciso dar nome, por assim dizer, aos bois. Dominao e submisso, as designaes mais palatveis para sadomasoquismo, so prticas que envolvem no cenas imaginrias ou algemazinhas emplumadas de sex shop, mas sim ter e provocar prazer com a dor, por sinal explicitamente descritas e discutidas em Cinquenta Tons, em meio aos lbios mordidos e faces ruborizadas, entre outros clichs da herona romntica, Anastasia Steele. O terreno a fica mais pantanoso. As sensaes fsicas de dor e prazer so muito prximas. A dor acelera a respirao, aumenta os batimentos cardacos e a presso arterial, explica o historiador americano Andrew Trees, autor do livro Decodificando o Amor  A Arte do Encontro, sobre a associao de prazer com sofrimento. Outros especialistas localizam a origem desse tipo de comportamento em sensaes mais antigas, da criana que, ainda sem os alicerces das construes sociais, desperta sensorialmente para o mundo.
     Um dos maiores lugares-comuns sobre comportamento sexual  dizer que, entre quatro paredes e adultos consentidores, tudo  vlido. Em sua infinita complexidade, a sexualidade humana acomoda at lugares-comuns. Ou homens dominadores que so capazes de ir a um restaurante e pedir uma nica taa de vinho. Para algumas mulheres, um sujeito assim  uma forma de tortura. Para outras,  o deus Christian Grey.


9. ESPECIAL  O CHRISTIAN GREY DE CARNE E OSSO
Psicloga britnica usou descries de leitoras e programa de retrato falado para criar a face do sedutor da trilogia. Ser que isso diminui o fascnio das fs pelo personagem que s existe, lindo e irresistvel, na imaginao feminina?
NATLIA LUZ

     Dar rosto a um personagem literrio famoso, que s existe na mgica da imaginao de leitores apaixonados,  arriscado. As vezes d certo, na maioria dos casos no. Em 1962, James Bond saiu das pginas do escritor ingls Ian Fleming e chegou ao cinema na pele do escocs Sean Connery, at hoje reverenciado pela elegante arte de misturar o ar canastro com o charme imbatvel. Mas o gals Timothy Dalton, no fim dos anos 80, com uma interpretao soturna e amargurada, oposta ao tom leve que consagrou a franquia, foi um Bond que no funcionou.  esse tipo de estrago que os produtores do filme inspirado em Cinquenta Tons de Cinza querem evitar. Os direitos da trilogia foram vendidos ao estdio Universal por 5 milhes de dlares. No h data para o lanamento. Quem far Christian Grey, o bilionrio dominador de Anastasia Steele? O desafio: como escolher o ator para interpretar um homem que tem um jeito prprio na cabea de cada leitora?
     A professora de psicologia Faye Skelton, da Universidade de Lancashire Central, na Inglaterra, se arriscou a dar uma resposta. Ela usou um programa especializado em retratos falados para dar uma cara ao homem fantasiado pelas leitoras. O Grey digital foi montado a partir de descries enviadas pelas ouvintes a uma rdio em Buckinghamshire, cidade de 700.000 habitantes no sul da Inglaterra. Algumas enviaram apenas descries fsicas, sem referncia especfica, e outras mandaram fotos de atores ou ainda descreveram caractersticas de homens conhecidos, disse Faye a VEJA. Como o software  completo, pude escolher cada caracterstica no mnimo detalhe. O resultado  uma face que parece familiar (veja o quadro acima), tem o queixo de David Beckham e o formato do rosto de Brad Pitt, mas namora o esquisito  ficou parecido com o lutador de MMA americano Chael Sonnen, aquele que costuma ser espancado por Anderson Silva. Da soma de vrias belezas no brotou um deus. Nas redes sociais deu-se a chiadeira, na expectativa de algum mais novo e mais sexy. Uma leitora foi direto ao ponto: Por que esto tentando arruinar minha fantasia? Conheo Christian Grey, e este no  ele
     No h soluo para a esperada discrepncia entre o Christian Grey que j existe na cabea de milhes de mulheres e aquele que ainda nascer. O melhor caminho talvez seja desapegar-se dos detalhes fsicos para se concentrar em contar uma boa histria. Quem d a receita  o diretor de cinema e cronista Arnaldo Jabor, que teve a tarefa de adaptar duas obras de Nelson Rodrigues: Toda Nudez Ser Castigada e O Casamento. Livro  uma coisa e cinema  outra. No  necessrio que seja igual ao que est escrito, apenas o esprito da histria  que precisa ser parecido, diz Jabor. Bem-humorado, ele resume o que tende a acontecer, alheio  fria das adoradoras de Grey: O filme tem grandes chances de ser ruim porque o livro  ruim.
     Para alvio dos produtores do filme, dever ser um pouco mais simples escolher a atriz que interpretar Anastasia Steele (Emma Watson e Alexis Bledel esto bem cotadas para o papel). De modo a facilitar a identificao das mulheres, de qualquer mulher, com a protagonista da histria, a escritora Erika Leonard James reservou poucas linhas para descrev-la. Sabe-se que  uma garota meio atrapalhada, de pele plida, cabelos escuros rebeldes e que se veste como adolescente. De Grey, conhece-se quase tudo, e quem leu Cinquenta Tons parece conviver com ele desde a infncia, agora com um rosto possvel.

UM ROSTO FAMILIAR
Os detalhes anatmicos dos homens que, a partir de depoimentos de leitoras, inspiraram o retrato falado do personagem de Cinquenta Tons de Cinza.
Os olhos de Patrick Dempsey
O formato do rosto de Brad Pitt
Os cabelos de Channing tatum
O nariz de Chris Hemsworth
A boca de Val Kilmer
O queixo de daviz Beckham.


